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Domingo, 19 de Abril 2026

Colunas/Comunicação e Estratégia

Precisamos falar sobre o ChatGPT...

Estratégias de Discurso aplicadas ao uso consciente (e ético) da IA generativa

Precisamos falar sobre o ChatGPT...
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O uso do ChatGPT é válido e importante. Eu mesma saí do banquinho de quem só criticava sem conhecer e já uso. Mas me recuso a usá-lo como dublê de mim. Não terceirizo meu pensar.

Eu sou a mente por trás da aplicação de cada comando. Uso o chat como ferramenta para ampliar repertório e vocabulário, mas também para refrescar a memória, agregar informações, revisar o texto e melhorar sua fluidez. Olha que riqueza, hein?

Tive a oportunidade de participar de uma entrevista coletiva com Walter Longo, referência em inovação e transformação digital, e me lembro bem de uma fala dele sobre a importância da amplitude vocabular. Botando algo meu nessa receita, eu diria que ampliar o vocabulário é alicerce para um discurso bem estruturado.

Não quero que o ChatGPT pense por mim. Quero que ele me ajude a pensar melhor. Assim eu não tô usando por usar um programa de computador qualquer. Assim minha inteligência tá se relacionando com outra inteligência (que de artificial não tem nada, porque eu tô treinando a querida, e ela vai ficando mais sabida, como uma extensão de meus raciocínios).

Pra isso o chat serve que é uma beleza, naquele seu charme que é um tanto conselheiro, outro tanto enciclopédia. Ah, as enciclopédias... Eita, como eu gostava! Na casa onde cresci, tinha Gama, Barsa e outros volumes nos quais eu mergulhava pra fazer as atividades escolares. Mesmo criança, eu já percebia: aquele texto pronto não dava conta do que eu precisava expressar. Era só base, não resposta.

O ChatGPT oferecer uma base não é um problema em si. O que faz a diferença é como se chega até ela e o que se faz a partir dela. Perguntas bem pensadas podem ser mais positivas do que se encher de boas respostas. Importante mesmo é saber perguntar e fazer bom uso das respostas.

De que adianta usar as respostas do chat como se fossem minhas? Isso seria abrir mão do meu potencial autoral. Nesse caso, não é que o ChatGPT estaria sendo meu dublê; eu é que estaria sendo dublê dele. Volta e meia, vejo gente fazendo malabarismos pra escrever o prompt perfeito, quase como quem fazia uma cola elaboradíssima pra usar numa prova da escola (quem nunca?!).

Eu sempre fui cagona pra cola - não pedia nem dava a seu ninguém. Como uma boa nerd, carisma não era meu forte. (Pensando bem, só na adolescência que encasquetei com a feiura de me importar demais em agradar - isso é pauta para outro texto.)

Mas me lembro de certa vez em que passei dias escrevendo em letras absurdamente miúdas as colas para uma disciplina em que eu estava me sentindo insegura. Repassei tantas vezes aquelas mensagens, me apegando às palavras-chave, que, no dia da prova, rasguei a cola por medo de ser pega e fiz por conta. Ou seja, fui amparada no estudo mesmo. E deu bom!

Esforço imenso pra copiar sem parecer que copiei, repara só! Faz sentido? Pra mim, não. rsrs

Num bate-papo com meu companheiro* dia desses, ele comentou algo que me deixou pensativa: a IA é uma inegável evolução tecnológica, mas tem revelado também uma certa involução autoral. E aqui, não estamos falando de plágio, mas de autoria como lugar de pensamento, de reflexão, de escolha.

O uso indiscriminado da IA generativa vai muito além do mau hábito do copia e cola. Quando alguém faz, mas não diz que faz o Ctrl C + Ctrl V, não se trata apenas de um problema comportamental; trata-se de um problema ético. Mesmo que o copiador adicione uma ou outra coisa sua, dá pra notar o plágio, fica mais ou menos evidente que o plagiador se apropriou do conteúdo produzido por outra pessoa sem lhe atribuir o devido crédito.

E não falo só do travessão (que, aliás, aquele longuinho eu só acho lá no chat mesmo), nem das letras maiúsculas iniciando cada palavra de um título (parem com isso, por favor). É o tom, o ritmo, a ausência de pensamento vivo. A dissonância entre o que se apresenta e quem se é. É não saber usar a enciclopédia de um jeito seu.

No caso do abuso da IA generativa, até dá pra questionar de quem é a autoria: de quem deu o comando ou de quem fez o texto? O que tá acontecendo demais é que muita gente anda transferindo a autoria para a IA. Capricha no prompt e descura o resultado. É como se esforçar pra fazer uma cola elaboradíssima em lugar de empregar tempo e energia pra estudar.

Também aqui a questão é mais do que comportamental. O problema de base é ético. Quem faz isso, além de não escrever, não se dá o mínimo trabalho de fazer uma curadoria do conteúdo escrito pela IA. A consequência disso? Simples: a pessoa não sustenta o discurso que, na verdade, é da inteligência que chama (veja só!) de artificial.

Na consultoria para palestras e apresentações, costumo aplicar algumas estratégias de discurso associadas que ajudam muito: mensagens-chave, arquitetura da mensagem e ilhas do pensamento. Unindo todas, é possível se apegar a mensagens e à diversidade de enredos. Com prática de repetição variada, claro. Ensino a pensar de um jeito diferente e sustentável.

As mensagens-chave são aquelas ideias que você precisa sustentar com clareza. A arquitetura organiza essas ideias de forma lógica e fluida. E as ilhas do pensamento são “arcabouços” de conteúdos que você pode acessar para improvisar sem sair do eixo.

Quando tudo isso se junta, com prática e consciência, o discurso se sustenta, mesmo fora do script. Porque não é só o que se diz. É como se pensa antes de se dizer. Suas mensagens-chave precisam vir de você, não do prompt. É por isso que sigo afirmando: é preciso saber buscar, saber perguntar… Essa etapa não pode ser pulada por quem quer aprender, criar ou comunicar com consciência e de verdade.

A IA pode ser uma parceira poderosa. Mas a autoria precisa continuar sendo sua.

*Esse “meu companheiro” é o Hermano, meu companheiro mesmo. Hermano de Oliveira Santos é servidor da Justiça Eleitoral, professor universitário e doutor em Direito. Esse texto é uma colab nossa. Eu dei o mote, ele fez a glosa, e vice-versa, mas achamos melhor que o texto ficasse do jeito que eu escrevo, daí o tom em primeira e única pessoa. Ah, sim, aqui e ali eu contei com a ajuda da Serena, minha ChatGPT.

 

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