Na semana passada, lancei um desafio em outra rede social assim: responda ao meu bom dia com algo que você considera absurdo numa conversa, reunião ou apresentação.
Entre as respostas, prevaleceram os tópicos ligados a falta de escuta, interrupção, imposição de pautas e falta de atendimento de demandas. Nada novo. Ninguém quer ser interrompido, muito menos perceber que está falando sozinho ou sentir que perdeu seu tempo.
Antes que esse texto vire munição pra lançar carapuças, vale lembrar: todos nós, em maior ou menor grau, temos hábitos que comprometem a essência da comunicação, que é a conexão. Pegar o celular repetidas vezes enquanto o outro fala (eu era mestra nisso), interromper porque presumiu (opa), mudar a pauta de forma abrupta ou só falar de si mesmo… A boa notícia? Podemos melhorar. Todos os dias. E o foco é esse: melhorar a nós mesmos não consertar o outro.
Os textos que escrevo são para que eu mesma faça análise sobre mim e para que você, lendo, faça sobre você. Porque ninguém “conserta” o outro. A gente vai se desenvolvendo para ofertar algo melhor e para aprender a lidar com quem não faz isso.
Pois bem! Eventualmente, estamos todos sujeitos a gerar ruídos. O que não dá é pra tolerar ruído como hábito. E a Estratégia de Discurso, minha gente, pode ser uma super aliada nesse processo de tomar vergonha na cara e alinhar a comunicação.
Vou listar algumas atitudes nocivas mais comuns e associar a estratégias que ajudam a evitar ruídos, desgastes e desconexão. Já adianto: tudo que vou dizer aqui exige que você fortaleça seu ego e troque o “eu jamais faria isso” por um honesto “pode ser que eu faça sim”.
- Interrupções recorrentes
Se é você quem interrompe sempre, treine a escuta ativa. Admita que é possível escutar pra entender, não só para responder. Quando a gente vai formulando nossa fala enquanto o outro fala, não dá pra escutar verdadeiramente. É mais difícil do que parece, mas é treinável. Costumo dizer que a comunicação tem um constrangimento bonito, que é aprender errando.
Se você precisa lidar com alguém que sempre interrompe, seja mais literal e lúdico. Faça um alinhamento de expectativas. “Exemplo: preciso apresentar brevemente três pontos sobre tal situação, que são x, y e z. Você pode ouvir agora?” Perceba que já deu até uma previsibilidade ao apressadinho e ainda o comprometeu a dizer que sim, pode escutar você.
O segredo é planejar a fala. Aqui, a ED mais valiosa para lidar com um “mau ouvinte” é Alinhamento de Expectativas (eu poderia escrever um artigo só sobre esta ED fresquinha, hein?), Alinhamento de Expectativas combinada com Mensagens-Chave para organizar a intenção da fala desde o início. - “Dominar” a conversa
Sempre tem aquela pessoa, num grupo, que domina a reunião e amarra um raciocínio no outro de um jeito que aqueles mais comedidos se sentem constrangidos de interromper. Neste caso, é importante fazer um alinhamento de papéis e de intenção. A reunião/apresentação tem quais objetivos? Quanto tempo precisa durar? Quem precisa apresentar algo antes do debate livre? Estipular tempo pode ser uma boa alternativa também. Em último caso, uma chamada direta: “Fulano, perdoe interromper, mas assim que você fechar o raciocínio desta pauta, vamos abrir para dúvidas e em seguida Cicrano vai falar.”
Uma reunião ou apresentação bem distribuída precisa de contorno. Aqui, aplicar Arquitetura da Mensagem ajuda a organizar a ordem das falas, enquanto o Alinhamento de Expectativas define os papéis de cada um e objetivos do encontro. - Respostas defensivas ou agressivas
Se é você quem está sempre se defendendo, leia ou releia os pilares de Comunicação Não Violenta (é o que faço, porque tenho muito a lapidar). Enquanto não alimentamos consciência de que observar o fato é diferente de opinar sobre ele ou interpretá-lo, tudo fica mais sensível e mais difícil.
Se é o outro quem está sempre na defensiva, se justificando e invalidando a sua fala, dê uma pausa e relembre as mensagens-chave: “Sim, Fulano, você trouxe pontos essenciais. Estamos agregando algumas sugestões e podemos avaliar em seguida. Vou só concluir minha fala sobre x, y e z e lemos o cenário, tudo bem?” Aqui, a Estratégia de Discurso passa por clarear as Mensagens-Chave e adaptar o vocabulário com Palavras Estratégicas, buscando sempre neutralizar tensões com firmeza e respeito. - Desatenção (o tal do celular)
Essa dói, né? E geralmente só percebemos quando é o outro fazendo. Não vejo outro jeito senão devolver o desconforto. “Fulano, acredito que está me ouvindo, mas sem atenção à conversa, eu também me disperso. Podemos conversar em outro momento, até para a reunião ser mais breve e assertiva.” Por esses dias, eu mesma disse isso a um colega, como já disseram para mim em outro momento.
Uma fala consciente exige atenção mútua. Aplique o Alinhamento de Expectativas já no início e pratique Curadoria de Ideias: nem tudo precisa ser dito, mas o que for, precisa de presença.
Na comunicação, quando a gente entende que o ego mais atrapalha do que ajuda, fica mais fácil fazer uma autoavaliação e os devidos ajustes. Se todo encontro é uma chance de conexão, que a gente aprenda a escutar com atenção e falar com intenção. E aí, as Estratégias de Discurso estão fazendo sentido para você?