A comunidade do bairro Lamarão, na zona norte de Aracaju, enfrenta desabastecimento contínuo de água, mesmo após uma decisão judicial que obriga a Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) a garantir o fornecimento regular. Nesta semana, a Promotoria de Justiça dos Direitos do Consumidor, do Ministério Público de Sergipe (MPSE), esteve no local para fiscalizar a situação e ouvir os moradores sobre as dificuldades enfrentadas.
A crise hídrica no bairro é alvo de ação judicial desde 2023 (Processo n°202011200965), com sentença que determinava à Deso a regularização do abastecimento nos bairros Lamarão, Dom Luciano e Loteamento Moema Meire. Em abril daquele ano, a Justiça fixou um prazo de 60 dias para resolver o problema, mas a falta d'água continua sendo uma realidade para os moradores. A decisão também previa o uso de carros-pipas para garantir o fornecimento emergencial, mas, segundo os moradores, a medida não vem sendo cumprida de forma satisfatória.
Durante a fiscalização, a Promotora de Justiça Euza Missano ressaltou o compromisso do MP na defesa dos consumidores. “Estamos aqui para registrar e levar ao Judiciário a realidade vivida pela população. São mais de 10 dias sem água em muitas residências. Não adianta ter reservatórios se a água não chega ou não tem força para abastecê-los. Essa situação é inaceitável, e o MP está ao lado da comunidade para buscar uma solução efetiva”, afirmou.
A dona de casa Maria Auxiliadora dos Santos, que vive no bairro há 38 anos, descreveu o impacto do desabastecimento em sua rotina. “São mais de 10 anos nesse sofrimento. Tenho reservatório, mas o que adianta ter o reservatório e não ter água para encher? Em novembro fiquei oito dias sem água, e meus vizinhos de cima ficaram ainda mais tempo. Para vir um carro-pipa aqui, a gente precisa se humilhar. Eles só chegam para o colégio e a creche. Enquanto isso, a gente tem que comprar água para as tarefas de casa, lavar roupa na casa de familiares em outro bairro, e esse deslocamento tem um custo. A gente precisa de uma solução o mais rápido possível, porque os talões não param de chegar”, desabafou.
O taxista Ediones Matos também relatou as dificuldades. “Já vivi momentos melhores aqui, mas tudo voltou ao normal [desabastecimento de água]. Eu tenho espaço para reservar mais de três mil litros de água em casa, mas não chega água. O call center que a Deso disponibilizou para a gente não funciona, e vamos vivendo nessa situação. Eu trabalho com transporte e não consigo higienizar meu carro aqui em casa, preciso levar para outro local. Não tem condições!”, lamentou.
O MPSE está compilando um relatório com as denúncias colhidas durante a fiscalização e encaminhará ao Poder Judiciário para exigir providências imediatas. Enquanto isso, a comunidade do Lamarão aguarda que a Deso cumpra sua obrigação e garanta o direito ao abastecimento regular de água.