Uma situação curiosa — e para muitos, inacreditável — veio à tona esta semana em Goiânia e viralizou nas redes sociais. Um casal, após o fim do relacionamento, buscava disputar na Justiça a guarda de uma boneca reborn, modelo hiper-realista que imita bebês recém-nascidos. A história foi compartilhada pela advogada Suzana Ferreira, que recusou a ação por considerá-la juridicamente inviável.
Segundo a profissional, uma das partes a procurou exigindo apoio legal para garantir a guarda da boneca, que tratava como filha. A cliente argumentava que o vínculo afetivo com a reborn fazia parte da “estrutura familiar” construída durante a relação e alegava que o ex-companheiro também queria a posse da boneca, com quem dizia ter laços emocionais profundos.
“Ela chegou com a ideia de judicializar a guarda da boneca. Me referia a ela como mãe, e falava do ex como pai”, relatou Suzana em vídeo. A advogada explicou que, embora compreenda o apego emocional envolvido, não há amparo legal para uma ação dessa natureza, já que a boneca não é uma pessoa e, portanto, não se enquadra nos critérios de guarda judicial.
Disputa vai além da boneca
O caso não parava por aí. A mulher também desejava que a divisão de despesas com a boneca e o enxoval fosse formalizada, além de requerer controle compartilhado do perfil da reborn no Instagram — uma página que já vinha gerando receitas com monetização e parcerias publicitárias.
A advogada, mesmo recusando a ação de guarda, se dispôs a representar a cliente apenas em relação à disputa sobre a conta da rede social, o que poderia configurar uma questão patrimonial legítima. Ainda assim, a cliente não ficou satisfeita com a negativa sobre a guarda.
Um fenômeno emocional e digital
As bonecas reborn, feitas artesanalmente para se parecerem com bebês reais, podem custar entre R$ 3 mil e R$ 10 mil e são muitas vezes usadas com fins terapêuticos, principalmente por mulheres que sofreram perdas gestacionais ou dificuldades emocionais. O fenômeno cultural tem crescido e gerado não apenas encontros entre colecionadores, como também movimentação legislativa.
No Rio de Janeiro, a Câmara Municipal aprovou recentemente o projeto de lei que institui o “Dia da Cegonha Reborn”, celebrado em 4 de setembro, destacando o papel simbólico dessas bonecas na vida de muitas pessoas. Já em Minas Gerais, tramita uma proposta que proíbe a simulação de atendimentos médicos para bonecas reborn em hospitais públicos, após casos de donos que levavam as bonecas a unidades de saúde como se fossem bebês reais.
Novos tempos, velhos desafios
O episódio em Goiânia escancara os dilemas enfrentados pelo Direito diante de novas expressões de afeto, propriedade e convivência. Para a advogada Suzana Ferreira, que divulgou o caso, o Judiciário precisa estar atento aos limites entre o vínculo afetivo legítimo e a judicialização de questões que ultrapassam o bom senso.
“A sociedade está mudando, e a loucura social impacta diretamente no Direito. Casos como esse vão aparecer cada vez mais. Cabe a nós saber até onde isso deve ser levado”, concluiu.