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Quinta-feira, 13 de Agosto 2026
Notícias/Segurança Pública

A letalidade policial em Sergipe: crianças e adolescentes no alvo

Estado lidera o ranking nacional de mortes de jovens entre 10 e 19 anos, vítimas da ação policial

A letalidade policial em Sergipe: crianças e adolescentes no alvo
Panorama Sergipe | Com informações do Mangue Jornalismo
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Sergipe, o menor estado brasileiro, enfrenta uma crise silenciosa e devastadora: a alta letalidade policial, especialmente entre crianças e adolescentes. Um estudo recente realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revelou que Sergipe lidera o ranking nacional de mortes de jovens entre 10 e 19 anos, vítimas da ação policial. Segundo o levantamento, 36,9% das mortes violentas de crianças e adolescentes no estado são causadas pela polícia – uma taxa quase três vezes maior que a média nacional de 18,2%. 

Esse dado alarmante expõe uma realidade trágica: os jovens sergipanos, especialmente os de comunidades periféricas e predominantemente negros, estão morrendo em números desproporcionais em supostos confrontos com as forças de segurança.

A “justificativa” do confronto
Nos últimos anos, a justificativa oficial para essas mortes tem sido praticamente a mesma: "confronto". A Secretaria de Segurança Pública (SSP) de Sergipe afirma que as mortes ocorreram durante intervenções policiais em que os jovens teriam reagido à ação dos agentes. No entanto, especialistas em segurança pública, ativistas e familiares das vítimas contestam essa narrativa. Para eles, o termo “confronto” mascara uma política de segurança pública que privilegia a letalidade e, muitas vezes, ignora os direitos básicos dos cidadãos.

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Casos como o dos irmãos Marcos e Marcelo Lima e Daniel Santos, mortos em dezembro de 2023 em Aracaju durante uma operação policial contra o tráfico de drogas, ilustram essa realidade. Segundo a polícia, os três foram mortos após reagirem à abordagem dos agentes. Mas, para os familiares, a versão oficial não reflete o que realmente aconteceu. "Não houve confronto, só execuções", afirma o pai de um dos jovens.

Mortes em números
O estudo revela que, em 2023, Sergipe registrou 24 mortes de crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos provocadas por ações policiais. O número é superior ao do ano anterior, quando 18 jovens foram mortos. Em 2021, o número chegou a 27, durante o governo Belivaldo Chagas, um dos anos mais violentos para jovens no estado. 

Ao analisar os dados gerais, Sergipe também aparece em uma posição preocupante: desde 2020, mais de 810 pessoas foram mortas pela polícia no estado. Em 2023, o primeiro ano de gestão do governador Fábio Mitidieri, 229 mortes foram registradas, o maior número desde o início do levantamento.

Itabaiana e Lagarto, duas importantes cidades do estado, destacam-se no cenário nacional como locais de maior letalidade policial. Em Itabaiana, 63% das mortes violentas no ano passado foram provocadas pela polícia; em Lagarto, a taxa foi de 54,3%. Ambas as cidades superam amplamente a média nacional.

A dor das famílias e o silêncio da mídia
Os dados são chocantes, mas para muitos familiares das vítimas, o que mais dói é a falta de respostas. “Meu filho foi morto pela polícia e até agora nada foi feito. Eles dizem que foi confronto, mas eu sei que não foi”, relata Adalto Soares, pai de Alassy Fael Silva Soares, jovem morto em uma operação policial na periferia de Aracaju. O caso de Alassy, como muitos outros, desaparece no silêncio da grande mídia local, que raramente questiona as versões oficiais fornecidas pela SSP.

“O que a gente vê são reportagens que repetem o que a polícia diz, sem questionar ou investigar. O jornalismo precisa ir além, dar voz a essas famílias e expor as injustiças que acontecem diariamente nas comunidades pobres de Sergipe”, comenta a jornalista Cristiane Santos, que atua em organizações de defesa dos direitos humanos no estado.

Violência sexual: outro alerta
A violência letal, no entanto, não é o único problema enfrentado pelos jovens em Sergipe. O estudo também trouxe à tona dados alarmantes sobre a violência sexual. Em 2023, o estado registrou 779 casos de estupro contra crianças e adolescentes, um número que vem aumentando constantemente desde 2021. Sergipe lidera o ranking do Nordeste em casos de estupro, superando a média nacional, com uma taxa de 40,1 casos para cada 100 mil habitantes.

A SSP afirma estar atuando em parcerias para combater esse tipo de crime, mas os números mostram que os desafios ainda são imensos. A impunidade, a falta de políticas preventivas e a ausência de apoio às vítimas agravam um cenário já marcado por tragédias cotidianas.

O papel do Estado e as recomendações
O estudo do Unicef e do FBSP apresenta uma série de recomendações para tentar frear o crescimento da letalidade policial em Sergipe. Entre as principais propostas estão a implementação do uso de câmeras corporais nos uniformes dos policiais e o controle rigoroso do uso da força nas abordagens. Essas medidas visam não apenas aumentar a transparência nas operações, mas também garantir que a força letal seja usada apenas em situações extremas e necessárias.

Além disso, o estudo destaca a importância de políticas públicas voltadas à proteção e inclusão de crianças e adolescentes, especialmente nas áreas mais vulneráveis.

“A letalidade policial é uma consequência direta da ausência do estado em outras esferas, como educação, cultura e assistência social. Quando o único contato desses jovens com o poder público se dá através da repressão, os resultados são trágicos”, explica a socióloga Maria Alves, especialista em segurança pública.

Um caminho para o futuro
Enquanto Sergipe lidera um dos rankings mais trágicos do país, a esperança de mudança parece distante. Contudo, o clamor das famílias das vítimas, o trabalho de organizações como o Unicef e o FBSP, e a pressão da sociedade civil podem ser o primeiro passo para que o estado repense sua política de segurança pública. O uso de força letal não pode ser a resposta padrão para o combate ao crime, e crianças e adolescentes não podem continuar a ser vistos como inimigos pelo próprio Estado. 

Para especialistas, o caminho para a redução da letalidade policial em Sergipe passa por um fortalecimento das políticas de prevenção e inclusão social, com foco na juventude. "A violência não começa com o confronto. Ela começa com a falta de oportunidades, com a ausência de políticas públicas que acolham esses jovens antes de eles serem aliciados pelo crime. É preciso investir em educação, cultura, esporte, e, sobretudo, em diálogo", argumenta a socióloga Maria Alves.

Uma política de segurança centrada em vidas
Nos últimos anos, a crescente militarização das polícias e a cultura do confronto têm sido temas de intensos debates no Brasil. Em Sergipe, onde os números da violência policial são alarmantes, a questão se torna ainda mais urgente. O estudo do Unicef e do FBSP propõe que o Estado adote uma política de segurança que não veja a eliminação física como o único caminho para resolver conflitos.

Essa mudança de paradigma exige um comprometimento não apenas das forças de segurança, mas também das lideranças políticas e da sociedade. O uso de câmeras corporais, por exemplo, é uma medida amplamente defendida por especialistas, pois pode inibir o uso excessivo de força e fornecer provas em casos controversos. Outro ponto crucial é a formação e capacitação dos agentes de segurança para atuarem em contextos de vulnerabilidade social, com um olhar mais humanizado para a população jovem e periférica.

A responsabilidade do governo
O governador Fábio Mitidieri, que assumiu o comando de Sergipe em 2023, enfrenta o desafio de reformular uma política de segurança pública que, até agora, tem falhado em proteger os mais vulneráveis. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública reconhece os dados alarmantes e afirma que a alta taxa de letalidade reflete o “contato precoce” de jovens com o crime organizado. No entanto, críticos apontam que essa justificativa não é suficiente para explicar a escalada de mortes por intervenção policial.

“A criminalidade é uma realidade nas áreas mais pobres do estado, mas isso não pode ser usado como desculpa para execuções sumárias. O governo precisa parar de tratar a periferia como uma zona de guerra e começar a implementar políticas que gerem oportunidades e dignidade para essas comunidades”, ressalta João Pedro Almeida, advogado e militante dos direitos humanos em Sergipe.

A voz das vítimas e o clamor por justiça
Enquanto o debate sobre a letalidade policial continua, as famílias das vítimas seguem em busca de justiça. Cada jovem morto em um “confronto” com a polícia deixa uma lacuna irremediável em sua comunidade, e as consequências são sentidas não apenas pelas famílias, mas por toda a sociedade.

Sandra Soares, mãe de Alassy Fael, jovem morto pela polícia em Aracaju, ainda carrega a dor de não ter respostas sobre a morte do filho. "A polícia disse que ele reagiu, mas eu sei que não é verdade. Ele estava desarmado, sem chance de se defender. Tudo o que queremos é que a justiça seja feita e que outras mães não precisem passar por isso", desabafa Sandra.

Essa dor é compartilhada por muitas outras famílias em Sergipe, que se sentem abandonadas pelo sistema de justiça. A impunidade em casos de violência policial é outro fator que contribui para a perpetuação desse ciclo de mortes. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maioria dos casos de mortes por intervenção policial em Sergipe não resultam em investigações aprofundadas, e os policiais envolvidos raramente enfrentam consequências.

O futuro: entre a esperança e a incerteza
Apesar dos números alarmantes, há movimentos e iniciativas que buscam romper com essa realidade. Organizações não governamentais, coletivos de direitos humanos e movimentos sociais têm trabalhado incansavelmente para dar visibilidade às vítimas e pressionar por mudanças. A Mangue Jornalismo, um exemplo de mídia independente no estado, tem sido fundamental ao dar voz às periferias e expor as contradições na narrativa oficial sobre a letalidade policial.

Mas a luta é árdua, e o caminho para uma mudança real ainda parece distante. Sergipe, um estado com grande potencial econômico e cultural, enfrenta o desafio de conciliar segurança pública com a proteção de seus cidadãos mais vulneráveis. Enquanto isso, as ruas das periferias continuam a ser palco de uma batalha silenciosa, onde os jovens são, mais do que nunca, as principais vítimas.

O relatório do Unicef e do FBSP acende um alerta vermelho, chamando a atenção para a urgência de uma reavaliação nas políticas de segurança no Brasil. A pergunta que fica é: quantas vidas mais serão perdidas antes que o Estado decida agir de forma efetiva?

Matéria originalmente encontrada em Mangue Jornalismo 

 

FONTE/CRÉDITOS: Panorama Sergipe | Com informações do Mangue Jornalismo

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